• Cassia de Marcos

Uma reflexão - Alice no País das Maravilhas e distorção de imagem corporal


Hoje vou fazer uma análise sobre uma das obras da literatura que mais me marcaram – e que, por incrível que pareça, possui grande relação com alguns aspectos do meu trabalho. O livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas trata sobre a queda da protagonista na toca de um coelho que a leva para um mundo fantástico, com animais falantes e criaturas bizarras. Mesmo que em um universo totalmente fantasioso, durante toda a obra é possível perceber alusões a problemas muito reais, por meio de alegorias.

Uma das mais interessantes é o diálogo entre Alice e a Lagarta. A Lagarta pergunta à garota quem é ela, e ela responde: “Hoje de manhã, quando acordei, eu sabia quem eu era, mas agora eu vivo mudando de tamanho, tenho medo de nunca mais achar o caminho de casa”. Trazendo essa metáfora para o meu cotidiano, essa perda de noção do seu tamanho real é algo muito comum entre pacientes com transtornos alimentares.

Essa frase da Alice me remete à fala das pacientes que estão passando pelo processo de aceitação e permissão. Nesse caso, Alice está crescendo e encolhendo, algo semelhante com o corpo de quem passou a vida sem se conhecer, tentando pertencer a um corpo que não é seu. São tantas tentativas de controle, de se diminuir, que o corpo tenta de todas as formas se estabilizar no peso que acredita ser saudável para exercer suas funções de forma adequada. Isso acontece por fatores variados. Algumas pessoas passam a infância ouvindo que são gordinhas e já crescem complexadas, apelando para dietas restritivas e buscando metas inalcançáveis, o que também traz o famoso “efeito sanfona”, em que o emagrecimento abrupto é acompanhado por um processo praticamente natural de um rápido ganho de peso. Outras pessoas deixam-se influenciar pelos distorcidos padrões de beleza da sociedade e nunca acham que estão bem o suficiente.

Esse tipo de pensamento gera a insatisfação corporal, que pode desencadear transtornos alimentares ou mesmo o comer transtornado, sempre culpando a si próprio e os alimentos por não ter a forma que gostaria. Por isso, uma parte muito importante do tratamento nutricional é ensinar as pessoas a conhecer o próprio corpo e saber qual é o seu tamanho real - aquele sem dietas malucas e impeditivas. Dessa maneira, o paciente começa a praticar o autoconhecimento, algo fundamental para a evolução física e mental durante esse processo.

Outro fator que afasta alguns pacientes é a falta de paciência com o tratamento – o que, voltando ao livro, também acontece com Alice. A garota fica irritada com as perguntas da Lagarta, usando o próprio processo de metamorfose do animal para tentar agredi-lo. É nesse momento que a Lagarta transmite um ensinamento tanto para Alice quanto para nós: respeitar seus processos naturais é algo bom e saudável. Transformar-se durante a vida é algo inerente a qualquer ser vivo.

Por isso, devemos buscar evoluir constantemente, sempre respeitando nosso corpo, nossa mente e nosso ritmo.

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